quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Desmond e a falsa causalidade de Hume


“Se o sol sempre nasceu no dia seguinte, isso garante que ele irá nascer amanhã?” Segundo o filósofo escocês David Hume a resposta é NÃO. Em um acesso de genialidade Hume enunciou o fim da filosofia moderna ao demonstrar que um dos princípios que constituíra toda a ciência ocidental desde Aristóteles, não passava de uma crença da razão não podendo ser fundamentada: o principio de causalidade! Não se pode prever que o sol que irá nascer amanhã a não ser pelo hábito de quê ele sempre nasceu até hoje. Apenas hábito, pois racionalmente nada pode provar que isso irá ocorrer. Por exemplo: Você vê uma janela quebrada e uma pedra no chão. Racionalmente você associa a pedra ao fato da janela estar quebrada, mas pode ser que alguém quebrou a janela com um ferro e deixou a pedra para induzi-lo a pensar isso. Ou seja, a filosofia de Hume está aberta ao acaso, ao inesperado, ao inusitado.

Sua contraparte ilhada, o também escocês Desmond David Hume está intrinsecamente relacionada à questão da causalidade. Desmond Hume foi induzido a assumir o fardo de permanecer trancafiado dentro de uma escotilha no meio de uma ilha onde foi parar em decorrência de um naufrágio. Levado a crer que o não cumprimento da orientação de digitar os números a cada 108 minutos no computador da escotilha iria custar uma grande catástrofe Desmond permaneceu dois anos trancafiado, um “hábito” decorrente do medo. Se por um lado o filósofo Hume acreditava que todos os eventos são determinados pelo acaso, é interessante notar que a causalidade se revela na pessoa de Desmond mediante o momento em que este deixa de apertar o botão. Essa ação tem por efeito nada mais do que a causa do acidente com o vôo 815 da Oceanic Air Lines.

O mais intrigante da questão da causalidade é que Desmond pode estar sendo ilustrado pelo filósofo escocês justamente em uma tentativa de refutar sua tese sobre a causalidade, já que ao parece muito desses fatos foram orientados por uma mulher que tinha consciência de certos acontecimentos, Eloise Hawking. A pergunta que ainda fica em suspenso é aquela que vem desde a primeira vez que assistimos a este programa: A queda do avião foi um acidente, ou foi algo premeditado?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sayid e a Melancolia



Quando Sayid Jarrah sobreviveu à queda do avião quê o levaria para Los Angeles, onde poderia finalmente encontrar sua amada Nadia, um verdadeiro inferno se iniciou em sua vida. O solitário soldado iraquiano havia deixado no passado longos meses de terror quando a serviço da Guarda Republicana se transformou em um torturador de sangue frio e obstinado a arrancar a verdade com o custo da dor. Mesmo depois de abandonado o exército e tentar levar uma vida cotidiana tranqüila, o seu legado o perseguiu, vendo os rostos dos torturados em seus sonhos e em grau mais elevado durante sua presença na ilha, onde as circunstâncias o obrigaram a reassumir o seu lado vergonhoso.

A personalidade desse personagem comporta um estado permanente de melancolia. Embora nós tenhamos por costume associar a melancolia como um sentimento de saudosismo, de lembranças do passado, esse estado psicológico pode ser resultado do constante enfrentamento do instante. Segundo o pensador dinamarquês Sören Kierkegaard a melancolia é um estado constante de quem percebe a tragicidade e o paradoxo da existência humana. Sayid convive com ambas as categorias, uma vez que não consegue encontrar paz de espírito, pois sua “natureza assassina” como Benjamin a define está sempre vindo à tona e, portanto o coloca em situações de extrema angústia. E também percebe-se sua paradoxal condição uma vez que foi capaz de torturar até mesmo a mulher de sua vida.

Esses traços revelam que Sayid se encontra no estado denominado por Kierkegaard como desespero de si próprio, quando a alma consciente de sua fraqueza e condição, enfrenta o instante. Desse enfrentamento irá resultar toda a angústia pela qual Sayid irá passar quando chegar a ilha, pois embora suas ações tenham sempre a finalidade de proteger seus amigos e escapar daquele lugar (enfrentamento da temporalidade), tais ações revelam sempre a obscuridade do seu eu (enfrentamento do instante). E depois de todas as tragédias que ocorreram em sua vida, Sayid parece estar gradualmente (e muito sutilmente por parte dos produtores) aceitando aquilo que ele é: um assassino.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O mapa de Radzinsky Parte I – Anotações sobre a Cisne


Agora que acabamos de ver o tão citado Incidente (mesmo sem entendermos de fato o que o causou) é uma boa hora para dar uma olhada mais atenta ao mapa secreto que Stuart Radzinsky irá desenhar na porta de emergência da estação Cisne, durante os meses que ficará vivendo nela. Quando John Locke descobriu o mapa na segunda temporada a atenção estava voltada para descobrir o que significava o ponto de interrogação que Radzinsky desenhou no centro do mapa, o qual viemos conhecer como sendo a estação Pérola, que possuía a função de monitorar as outras estações. A razão de o cientista desconhecer esse projeto se mostrou bastante intrigante, uma vez que parecia ele pertencer ao alto escalão da iniciativa Dharma. Isso mostra que na verdade a iniciativa era segmentaria, e dividida em núcleos independentes entre si.


Tendo agora uma noção mais clara da ordem dos eventos podemos concluir quê a Iniciativa Dharma não encerrou suas pesquisas imediatamente após o incidente, na verdade se estende até a finalização das estações Orquídea e Cisne, assim como do sistema de contenção da energia eletromagnética, a construção da estação Pérola e só será interrompida devida a purgação causada por Benjamin Linus. É interessante analisar as anotações em latim que Radzinsky fez em torno da Cisne no mapa. Logo abaixo da indicação de sua localização ele anota "ut sig magna, tamen certa lenta ira de orum est" - a ira dos deuses é grande, mas é lenta – o que provavelmente se refere ao incidente, um fato de enormes conseqüências, mas que levará tempo para se processar, pelo menos o tempo necessário para criar o mecanismo da chave de emergência, o computador dos números e a parede de concreto para contenção da energia. Acima dessa marca encontramos a expressão "nil actum reputa si quid superest agendum" – não considere nada terminado se ainda há algo a fazer – o quê sugere que mesmo após o incidente Radzinsky ainda está determinado a prosseguir com seus estudos sobre eletromagnetismo. Há ainda uma citação de cinco fatalidades em um período de seis a oitos meses, mas que não faz uma referência clara ao que se trata. Seriam alguns dos sobreviventes? Pesquisadores da Dharma? Hostis? Experiências mal-sucedidas?


Ao noroeste da escotilha Stuart ainda escreve "liberte te ex inferis", o quê nesse momento soa como um presságio das coisas ruins que ainda estão por vir dentro da ilha – Salve-se do inferno – seria uma menção ao tal vulcão inativo?

Dualismo


Não há conhecimento seguro se não houver refutação. Karl Popper propôs através de um criticismo que uma teoria só é válida se for possível o processo de falseação, ou seja, um mecanismo que a coloque sob a prova e possa falhar. Se não for possível quê uma teoria possa ser refutada, então ela não pode dizer com certeza o que é o mundo. Descartes prenunciou “de omnibus dubitandum est” – é preciso duvidar de tudo – como principio da construção de uma ciência confiável. Mas quando a refutação da ciência se dá pela metafísica?


Esse é o dilema inicial entre os personagens Jack Shepard (homem de ciência) e John Locke (homem de fé). Locke vê a ilha como um recanto de milagres, onde doentes se curam, mortos voltam à vida e sinais divinos mostram que caminho seguir. Embora a metafísica seja a “ciência do ser” o seu termo soa pejorativo hoje como sendo a explicação do mundo tomada de fora dele. O termo designa o que está além do mundo, além da physis (natu reza para os gregos) e portanto busca conhecer aquilo que a física não pode provar. Entretanto Locke não parece crer que a origem de seu destino está além deste mundo, mas entende a própria ilha como um ser e que é ela quem condicionou os fatos de sua vida convergindo para o seu estado atual. Em certo sentido ele parece estar completo de razão, uma vez que sempre esteve predestinado a ir para a ilha, mas ao invés de uma força superior (destino) quem proporcionou isso foi ele próprio.


Por sua vez Jack representa a razão em crise que não dá conta de entender o mundo (a ilha) em sua totalidade. O filósofo Imanuel Kant propõe um modelo de razão onde as categorias mentais organizam em “gavetas” o conhecimento do mundo. Mas as coisas que Jack presencia na ilha escapam desse cálculo e apenas uma coisa resulta dessas impressões, como quando Hurley o interroga sobre o fato de que Locke moveu a ilha. Jack mesmo relutante não tem como contrapor uma coisa que viu com seus próprios olhos, e quando a razão não consegue compreender o mundo só há uma coisa sábia a se fazer, ficar em silêncio

22 de Setembro de 2004, um avião cai em uma ilha...


...e dá início a uma série de acontecimentos que irá mudar as vidas daqueles que sobreviveram ao desastre. Conquistando milhares de fãs durante 5 anos a série de televisão LOST chega em 2010 a sua sexta e última temporada. Até lá, o jeito é rever os episódios passados para diminuir a ansiedade. E aproveitando a "entre-safra" criei esse espaço para discutir algumas questões interessantes propostas pela trama, para provar que existe entretenimento de qualidade e comprometido com o pensar do seus espectadores.